Uma arte assombrosa


  A galeria itinerante surgiu do nada, de repente e alvoroçou a cidade Ipês amarelos com a novidade.

  Num final de tarde de quinta-feira, um cartaz colado torto num poste anunciava a abertura do Ateliê das Imagens Vivas. Afonso e Ricardo, curiosos e apreciadores de arte e ainda mais por coisas estranhas, decidiram conferir.

  Era numa antiga casa colonial, daquelas que todos pensavam estar abandonada. A fachada estava desgastada, mas o interior fora transformado em um espaço silencioso, tomado por pinturas e esculturas que pareciam... observar.

  O artista, um homem magro, de cabelos muito pretos e olhos muito claros, se apresentou como Professor Velkan. Sua voz era baixa, pausada, e suas mãos pareciam sempre cobertas de uma fina camada de tinta escura, mesmo quando ele dizia estar "apenas recepcionando".

As obras eram... inquietantes.

  Pessoas presas em poses naturais, como se tivessem sido surpreendidas no meio de um pensamento. Animais cujos olhos acompanhavam os visitantes, e paisagens que pareciam respirar, com folhas que tremiam e água que refletia coisas que não estavam ao redor.

  Afonso se deteve diante de um quadro enorme, coberto por uma moldura de madeira carcomida. Era uma cidade, retratada com um realismo quase sobrenatural. E mais adiante, outra pintura de cidade. Mas mais que isso... ele conhecia aquele lugar.


—  Parece... nossa cidade —   murmurou Afonso. “Olha ali! Aquela praça... e o coreto... e a estátua!


Ricardo deu uma risada.


—  Você está viajando. Deve ser só uma coincidência. Essas pinturas são tão realistas que a gente acha que conhece.


Porém, Afonso não riu. Continuou encarando o quadro.

As pessoas ali retratadas pareciam estar se mexendo, discretamente, quando ele não olhava diretamente para elas. Ele achou ter visto alguém... acenar.

  No dia seguinte, Afonso ligou para Ricardo dizendo para se encontrarem no centro da cidade. Afonso foi e chegando lá, algo parecia “estranho na cidade”.

  Quando se encontraram na praça, Afonso ficou paralisado. A estátua do Dom Rodrigues, que sempre esteve ali no centro, não estava mais.


—  Ué, que estátua?— perguntou Ricardo, franzindo a testa.

—  O que você quer dizer com que estátua? A estátua que ficava aqui desde sempre!

— Cara... você deve ter sonhado. Aqui nunca teve nenhuma estátua.


  Afonso fica indignado, mas continua caminhando com Ricardo que, parecia entorpecido, queria levá-lo para algum lugar que ainda não dissera.

Eles foram até o museu da cidade. Estava fechado. Um papel pregado à porta dizia:


               "Espaço em reforma. Retorno em breve."


  No entanto, Afonso sabia que aquele museu nunca tinha fechado. E conforme o dia passava, mais ele notava detalhes faltando: o mural na escola antiga, o relógio da torre da prefeitura, a banca do senhor Avelino. Contudo, ainda pior: ninguém mais lembrava. Ninguém parecia reparar nos sumiços. Ricardo também parecia não se importar, não se lembrar. Ele foi para casa muito intrigado.

  No outro dia, Afonso voltou sozinho ao ateliê. Era noite. Diferente da abertura alegre, agora as luzes estavam apagadas. No entanto, a porta estava entreaberta. Ele entrou.

O quadro da cidade estava ali.

E agora, maior!

Ele se aproximou, quase sem respirar.

Ali estavam os monumentos que desapareceram. A estátua. O museu. O mural. A banca.

E, no canto do quadro... ele mesmo — com uma expressão de horror, os olhos arregalados, pintado de maneira tão viva que parecia prestes a gritar.

O Professor Velkan surgiu de um canto escuro, com as mãos sujas de tinta.


—  Você está vendo porque ainda não foi pintado por completo —  disse ele com um sorriso que não alcançava os olhos.


Afonso recuou, mas seus pés pareciam colados ao chão. Velkan ergueu um pincel e apontou para a moldura dizendo trnquilamente:


—  Cada cidade é uma obra inacabada. Eu apenas... preservo o que o tempo e a memória estão deixando apagar. Alguns, como você, percebem cedo demais.


A tela pulsava.

Os olhos da versão pintada de Afonso se moveram e encontraram os dele.

Ele gritou! E tudo ficou escuro...

  No dia seguinte, Ricardo passou pela praça, ouvindo um burburinho de crianças correndo.

Nada demais. Tudo normal.

  O Ateliê das Imagens Vivas já não estava ali. A casa parecia abandonada novamente, cheia de mato. E ele, nem se lembrava mais do ateliê. Contudo, Ricardo franziu a testa. Sentia que estava esquecendo alguma coisa. Alguém talvez. Mas o pensamento logo se desfez, como tinta escorrendo sob a chuva.

  Ele passou por um muro rabiscado e parou. Por um instante, achou ter visto, ali pintado com traços quase vivos, o rosto de Afonso...gritando, dentro de uma moldura. "Quem é Afonso mesmo?"

Deu de ombros e continuou seu caminho. 

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