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Uma arte assombrosa

  A galeria itinerante surgiu do nada, de repente e alvoroçou a cidade Ipês amarelos com a novidade.   Num final de tarde de quinta-feira, um cartaz colado torto num poste anunciava a abertura do Ateliê das Imagens Vivas. Afonso e Ricardo, curiosos e apreciadores de arte e ainda mais por coisas estranhas, decidiram conferir.   Era numa antiga casa colonial, daquelas que todos pensavam estar abandonada. A fachada estava desgastada, mas o interior fora transformado em um espaço silencioso, tomado por pinturas e esculturas que pareciam... observar.   O artista, um homem magro, de cabelos muito pretos e olhos muito claros, se apresentou como Professor Velkan . Sua voz era baixa, pausada, e suas mãos pareciam sempre cobertas de uma fina camada de tinta escura, mesmo quando ele dizia estar "apenas recepcionando". As obras eram... inquietantes.   Pessoas presas em poses naturais, como se tivessem sido surpreendidas no meio de um pensamento. Animais cujos olhos acompanh...

Os Dois Vigaristas e a Cidade Morta

   Diziam que nada de bom poderia nascer dos vícios daqueles dois homens. Eram feios, de rosto enrugado antes da idade, olhos sempre vermelhos de tanto álcool e malícia. Passavam de bar em bar, de adega em adega, bebendo até não poder mais e, no momento de pagar a conta, saíam cambaleando e correndo pelas ruas, desaparecendo em seguida em uma corrida desajeitada. Um deles se chamava Bento, um homem de rosto amassado, com dentes escurecidos e o nariz torto de tantas brigas. O outro era Raimundo, mais magro, de pele amarelada e olhos esbugalhados, sempre tremendo entre a ressaca e o medo. Viviam assim por anos, enganando donos de bares e garçons ingênuos. Mas naquela noite, a primeira diferença aconteceu. Entraram na Adega Drink's Bar . Beberam até a garganta arder, gargalhando com seus dentes podres, zombando das histórias dos outros clientes. Quando a conta chegou, Bento se levantou com o velho truque: — Deixa comigo... Eita, deixei a carteira no carro, vou pegar o dinheiro lá...