Os Dois Vigaristas e a Cidade Morta
Diziam que nada de bom poderia nascer dos vícios daqueles dois homens. Eram feios, de rosto enrugado antes da idade, olhos sempre vermelhos de tanto álcool e malícia. Passavam de bar em bar, de adega em adega, bebendo até não poder mais e, no momento de pagar a conta, saíam cambaleando e correndo pelas ruas, desaparecendo em seguida em uma corrida desajeitada. Um deles se chamava Bento, um homem de rosto amassado, com dentes escurecidos e o nariz torto de tantas brigas. O outro era Raimundo, mais magro, de pele amarelada e olhos esbugalhados, sempre tremendo entre a ressaca e o medo. Viviam assim por anos, enganando donos de bares e garçons ingênuos. Mas naquela noite, a primeira diferença aconteceu. Entraram na Adega Drink's Bar . Beberam até a garganta arder, gargalhando com seus dentes podres, zombando das histórias dos outros clientes. Quando a conta chegou, Bento se levantou com o velho truque: — Deixa comigo... Eita, deixei a carteira no carro, vou pegar o dinheiro lá...