Os Dois Vigaristas e a Cidade Morta
Diziam que nada de bom poderia nascer dos vícios daqueles dois homens. Eram feios, de rosto enrugado antes da idade, olhos sempre vermelhos de tanto álcool e malícia. Passavam de bar em bar, de adega em adega, bebendo até não poder mais e, no momento de pagar a conta, saíam cambaleando e correndo pelas ruas, desaparecendo em seguida em uma corrida desajeitada. Um deles se chamava Bento, um homem de rosto amassado, com dentes escurecidos e o nariz torto de tantas brigas. O outro era Raimundo, mais magro, de pele amarelada e olhos esbugalhados, sempre tremendo entre a ressaca e o medo. Viviam assim por anos, enganando donos de bares e garçons ingênuos.
Mas naquela noite, a primeira diferença aconteceu.
Entraram na Adega Drink's Bar. Beberam até a garganta arder, gargalhando com seus dentes podres, zombando das histórias dos outros clientes.
Quando a conta chegou, Bento se levantou com o velho truque:
— Deixa comigo... Eita, deixei a carteira no carro, vou pegar o dinheiro lá e volto — dando uma piscadela para o companheiro.
Raimundo acrescenta:
— Enquanto isso vou ao banheiro me aliviar — pensando em sair pelos fundos.
Mas o atendente, um rapaz forte chamado Nicanor, já conhecia a fama dos dois. Ele fez um sinal com a cabeça para dois funcionários — Jonas e Mateus.
— Eles não escapam hoje. Não vão fazer isso aqui! — Disse Nicanor aos dois atendentes.
Quando os vigaristas tentaram fugir, ouviram passos atrás e gritos.
— Parem, ladrões de pinga! — berrou Nicanor, seguido de seus colegas.
Estavam sendo perseguidos de verdade.
Desesperados, correram como nunca antes. As ruas movimentadas logo ficaram para trás, substituídas por vielas estreitas, onde a luz dos postes pareciam falhar. Os perseguidores não desistiam. O pavor fez os dois trapaceiros tomarem um rumo que jamais escolheriam: acabaram chegando numa parte esquecida da cidade. Passaram por um buraco no alambrado que cercava o local e adentraram.
Ali, a história era outra. Décadas atrás, um surto devastador de doença e histeria caíra sobre aquelas ruas. Famílias inteiras morreram, dizem, e ninguém jamais saiu de lá. As casas estavam em ruínas, portas caídas, janelas pendendo como bocas podres. Montanhas de lixo apodreciam, ratos corriam entre ossos humanos ainda espalhados. O ar fedia a mofo, carne velha e lembranças ruins. Uma névoa espessa subia do chão, deixando a respiração pesada e o coração acelerado.
— Vamos embora daqui... — murmurou Raimundo, já cambaleando.
— Se pararmos, eles nos pegam! — respondeu Bento, mais apavorado com os passos atrás do que com o lugar.
As ruas vibravam com seus passos e uma neblina subia pelo ar.
No entanto, algo mudou. Não eram apenas os homens que os perseguiam. Havia outro som. Gemidos baixos, longos, como se as paredes chorassem. Entre as frestas das casas em pedaços, vultos cinzentos espiavam. Às vezes, uma mão de pele ressequida surgia por um instante, para logo sumir no nevoeiro. O vento trazia sussurros: “Fiquem... fiquem...”
Os dois vigaristas tropeçaram em ossadas, tentando avançar.
Eles seguiam tropeçando, mas o ambiente parecia vivo. Do nada, um gemido longo ecoou, vindo de dentro de uma casa escura.
— Ouviu isso? — Raimundo agarrou o braço do amigo.
— Rato grande. Só pode. — respondeu Bento, tentando não demonstrar o pavor.
Seus perseguidores, finalmente alcançando-os, entraram no mesmo beco e gritaram:
— Parem, seus desgraçados! Querem sair sem pagar? — Disse Nicanor aos berros.
Porém, ao pararem os dois vigaristas, Nicanor e seus Atendentes, Mateus e Jonas, observaram melhor o lugar e se depararam, aonde tinham se metido por causa da perseguição.
As casas pareciam bocas podres escancaradas, portas quebradas balançando com o vento. O chão estava coberto de papéis velhos, roupas rasgadas, ratos correndo em bandos. Ossos surgiam entre entulhos. O cheiro era tão forte — mofo, podridão, lembrança de corpos — que parecia grudar na pele. Uma névoa leitosa cobria o chão e se erguia até a altura do peito.
Mas quando todos estavam frente a frente, algo terrível aconteceu. A névoa se ergueu como se tivesse vida, e dela se formou uma figura imensa, negra, com o rosto coberto por uma máscara de médico da peste — bico alongado, olhos vazios que brilhavam em vermelho.
Jonas recuou, engolindo seco:
— Meu Deus... é um daqueles médicos da praga.
— Isso não pode ser real. — disse Mateus, já tremendo.
A criatura se moveu em silêncio. Não atacava com pressa, mas caminhava devagar, como se soubesse que todos estavam presos ali, sem saída. O chão parecia fechar, as paredes se inclinavam para dentro. Jonas, o garçom tentou correr, mas mal deu dois passos antes de ser engolido pelo nevoeiro e desaparecer com um grito sufocado.
O atendente Mateus, tremendo, balbuciou para o restante:
— Agora eu entendo... esse bairro... nunca foi abandonado apenas pela peste. Foi amaldiçoado!
As aparições começaram a cercar todos eles — rostos pálidos, bocas abertas em silêncio, cadáveres de tempos esquecidos, que caminhavam ainda cobertos de panos fúnebres.
A figura deu um passo. O som era seco, como ossos se quebrando sob o peso. A névoa o acompanhava, rastejando para todos os lados.
Os dois vigaristas, pela primeira vez na vida, quiseram se entregar. Quiseram pagar, pedir desculpas, confessar todos os pecados. Mas não havia mais moedas, nem perdão.
Raimundo começou a gritar:
— Bento, a gente devia ter pago, devia ter pago! Eu não quero morrer aqui!
— Cala a boca! — mas a própria voz de Raimundo já se quebrava. — acha que isto vem de não pagarmos! Ele vai nos levar!
A entidade ergueu lentamente o braço. A túnica se abriu, revelando uma mão fina, quase esquelética, com unhas negras e compridas. No mesmo instante, gemidos ecoaram de todos os lados. Do chão, das casas, das janelas quebradas, aparições começaram a surgir: corpos cobertos por trapos, rostos inchados, bocas abertas em gritos sem voz. Os mortos da mazela, da peste.
— Eles nunca saíram daqui... — sussurrou Jonas, paralisado.
O ar ficou pesado, cada respiração doía. Feridas começaram a se abrir na pele de todos — perseguidores e vigaristas — bolhas escuras e manchas vermelhas, como se a própria peste voltasse a queimar seus corpos.
Nicanor caiu de joelhos, tossindo sangue.
— Estamos amaldiçoados... todos nós...
Bento e Raimundo tentaram correr, mas cada passo era sugado pela neblina, como se o chão fosse lama viva. As aparições avançaram, arrastando-os de volta. Um deles, com o rosto coberto de feridas, agarrou Raimundo pelo tornozelo.
— Solta! Pelo amor dos céus, me solta! — ele gritava, mas foi puxado para dentro da névoa, desaparecendo em segundos.
Bento tentou gritar o nome do amigo, mas a voz falhou. Sentiu um frio cortante no peito, como se mãos invisíveis apertassem seu coração.
No último instante, antes de ser engolido também, ele olhou para Nicanor e Mateus. Estavam sendo arrastados juntos. E a figura de máscara, imóvel, apenas observava.
E no silêncio que seguiu, apenas os ratos ousaram se aproximar.
Na manhã seguinte, quem por acaso passou pela entrada daquele bairro jurou ver quatro novas silhuetas imóveis na neblina. Dois com roupas de bêbados vagabundos, e dois vestidos como garçons. Todos petrificados, olhos abertos, bocas congeladas em gritos mudos.
E a névoa... ainda mais densa, e ao fundo uma silhueta de um médico com máscara da peste fazendo ronda.
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